
Deus (ou foi a Morte?) golpeou com sua pesada foice o coração do meu amado (não se vê a ferida, mas rasgou o meu também). Ele abriu os olhos, com ar deslumbrado, disse bem alto meu nome no quarto de hospital e partiu.
Quando se foram também os médicos e suas máquinas inúteis, ficamos sós: a Morte (ou foi Deus?) o meu amado e eu. Enterrei o rosto na curva do seu coração emudecido e o meu, varados por essa dourada foice. Por onde vou deixo os rastros de um sangue denso e triste que não estancará jamais.
O meu amado tinha tantas manias: perdia canetas, lápis, chaves. Houve um livro que comprou três vezes em um mês: depois encontramos todos e mais um sob velhos jornais. Mandei fazer uma estante nova para organizar seus livros: mas quando ele se foi, mas que livros havia ali de novo jornais. Nunca sabia bem por que os guardara. Eram parte do seu ninho, como nossos lençóis e os móveis da sala. Não conseguia sentar-se mais que meia hora para escrever: vinha ao meu escritório, usava de pretextos para me distrair, dava um beijo, fazia confidências, comentava assuntos do dia. Quando me via triste, dizia entre compassivo e magoado: ”Você hoje está numa melancolia profunda?” Certa vez discutimos, e ele deixou sobre minha máquina de escrever um bilhetinho: “Hélio Pellegrino ama Lya Luft.” Nunca tivemos mais que vinte anos.
“A morte, velha amiga, me sorri: agora tem do seu lado aquele que me foi tudo nesta vida. Tem mãos macias a velha senhora, traiçoeiras e leves mas reveladoras: porque um dia me recolherá também para debaixo do seu manto e haverá esplendor.”
Quando se foram também os médicos e suas máquinas inúteis, ficamos sós: a Morte (ou foi Deus?) o meu amado e eu. Enterrei o rosto na curva do seu coração emudecido e o meu, varados por essa dourada foice. Por onde vou deixo os rastros de um sangue denso e triste que não estancará jamais.
O meu amado tinha tantas manias: perdia canetas, lápis, chaves. Houve um livro que comprou três vezes em um mês: depois encontramos todos e mais um sob velhos jornais. Mandei fazer uma estante nova para organizar seus livros: mas quando ele se foi, mas que livros havia ali de novo jornais. Nunca sabia bem por que os guardara. Eram parte do seu ninho, como nossos lençóis e os móveis da sala. Não conseguia sentar-se mais que meia hora para escrever: vinha ao meu escritório, usava de pretextos para me distrair, dava um beijo, fazia confidências, comentava assuntos do dia. Quando me via triste, dizia entre compassivo e magoado: ”Você hoje está numa melancolia profunda?” Certa vez discutimos, e ele deixou sobre minha máquina de escrever um bilhetinho: “Hélio Pellegrino ama Lya Luft.” Nunca tivemos mais que vinte anos.
“A morte, velha amiga, me sorri: agora tem do seu lado aquele que me foi tudo nesta vida. Tem mãos macias a velha senhora, traiçoeiras e leves mas reveladoras: porque um dia me recolherá também para debaixo do seu manto e haverá esplendor.”
Lya Luft
No comments:
Post a Comment